Ler não é a mesma coisa que criticar
Quem lê procura entender: qual foi a intervenção, quantas pessoas participaram, qual foi o resultado. Quem faz leitura crítica procura o contrário: por onde este estudo poderia estar errado sem que ninguém tenha mentido.
A diferença aparece no que cada um faz com a conclusão. O leitor a repete. O leitor crítico pergunta se os dados apresentados sustentam aquela frase, e com que grau de certeza.
Pergunta 1: a pergunta do estudo está clara?
Um estudo sem pergunta definida não tem como estar certo nem errado. Procure, nos objetivos, os quatro elementos da estrutura PICO: em quem, o que foi feito, comparado com o quê e medindo o quê.
O ponto que mais escapa é o desfecho primário. Um estudo mede dez coisas e declara uma como principal, antes de começar. Quando o artigo não deixa claro qual era, ou quando o desfecho que aparece no título não é o primário registrado, isso é um sinal de alerta que volta na pergunta 4.
Pergunta 2: o desenho responde a essa pergunta?
Cada tipo de pergunta pede um desenho, e usar o desenho errado invalida a resposta por mais bem feito que seja o estudo.
| Pergunta | Desenho adequado |
|---|---|
| Este tratamento funciona? | Ensaio clínico randomizado, ou revisão sistemática deles |
| Isto faz mal? Qual o risco? | Coorte, caso-controle |
| Quantas pessoas têm isso? | Estudo transversal |
| Este teste diagnostica bem? | Estudo de acurácia com padrão de referência |
| Como é viver com essa condição? | Estudo qualitativo |
Um estudo transversal, por exemplo, mede exposição e desfecho ao mesmo tempo. Ele não consegue dizer o que veio antes, então não sustenta relação de causa. Quando a conclusão de um transversal diz "melhora", a conclusão passou do que o desenho permite.
Pergunta 3: o método protege contra viés?
Aqui entra o instrumento. Não se avalia risco de viés de cabeça: usa-se a régua feita para aquele desenho, o que torna o julgamento comparável e defensável.
- Ensaio randomizado: RoB 2, cinco domínios.
- Estudo observacional de intervenção: ROBINS-I, sete domínios, começando por confusão.
- Revisão sistemática: AMSTAR 2, dezesseis itens, sete deles críticos.
- Diretriz clínica: AGREE II, seis domínios.
- Ensaio em fisioterapia: escala PEDro, nota de 0 a 10.
Independente do instrumento, quatro perguntas concentram a maior parte do estrago em estudos de intervenção: o sorteio foi de verdade e ficou em sigilo até a alocação? Quem mediu o desfecho sabia o grupo? Quantos saíram, e a saída foi parecida entre os grupos? A análise manteve cada um no grupo em que foi sorteado?
O detalhe que diferencia quem já fez isso antes: "não informado" não é "feito". Quando o artigo não descreve o sigilo da alocação, o julgamento correto é de preocupação, não de aprovação. Falta de relato costuma andar junto com falta de método.
Pergunta 4: o resultado sustenta a conclusão?
Esta é a pergunta que mais separa a leitura rápida da leitura crítica, porque exige comparar duas partes distantes do artigo: a tabela de resultados e o último parágrafo.
- Diferença estatística não é diferença que importa. Um p menor que 0,05 diz que a diferença provavelmente não foi acaso. Não diz que o paciente vai sentir. Procure a diferença mínima clinicamente importante do desfecho e compare.
- Olhe o intervalo de confiança, não só o p. Ele mostra o tamanho do efeito compatível com os dados. Um intervalo largo que vai de "quase nada" a "muito" significa que o estudo não decidiu a questão.
- Desconfie da troca de desfecho. Se o resumo destaca um desfecho secundário e o primário não aparece, provavelmente o primário não deu o resultado esperado.
- Cuidado com a conclusão que cresceu. Isso tem nome, spin: os resultados mostram diferença pequena e não significativa, e a conclusão fala em "tendência promissora" e "benefício". É frequente o bastante para virar objeto de estudo.
No fim, o julgamento se resume em uma frase que você deveria conseguir escrever: em quem, o efeito é de que tamanho, com que certeza. Se você não consegue escrever essa frase depois de ler, ou o artigo não permite, ou a leitura ainda não terminou.
Como treinar isso sem levar uma tarde
Leitura crítica cansa porque exige ir e voltar no texto. Um caminho prático é ler na ordem: objetivo, depois métodos, depois tabelas, e só então a discussão. Chegar na discussão já sabendo o que os dados mostram é o que protege do spin.
No SciCritic, o CRITIQUE executa essa sequência sobre o PDF inteiro: identifica o desenho, aplica o instrumento correspondente domínio por domínio, mostra o trecho do artigo que sustenta cada julgamento e devolve uma nota de 0 a 10 com a conta aberta, além da certeza da evidência em GRADE. A análise é feita por IA e existe para você conferir com o texto na mão, não para substituir o seu julgamento.
Faça a leitura crítica com o instrumento aplicado à vista
Envie o PDF do estudo. Veja cada domínio julgado, com o trecho do artigo que sustenta o julgamento, e a nota com a conta aberta.
Testar 7 dias grátis Hoje você paga R$ 0.Perguntas frequentes
Quanto tempo leva uma leitura crítica?
Com prática e instrumento em mãos, de 20 a 40 minutos para um ensaio. A primeira vez leva bem mais, porque você para para entender cada item do instrumento. O tempo cai rápido: os domínios se repetem, e a partir do quinto artigo você já sabe onde procurar cada informação.
Preciso saber estatística para fazer leitura crítica?
Precisa de menos do que parece. Interpretar intervalo de confiança, entender que p não é tamanho de efeito e saber o que é análise por intenção de tratar já cobrem a maior parte dos casos. O grosso da leitura crítica é sobre desenho e condução, não sobre cálculo.
Qual a diferença entre leitura crítica e revisão por pares?
A revisão por pares acontece antes da publicação e decide se o trabalho é publicável. A leitura crítica acontece depois e decide se aquele resultado serve para a sua pergunta e para o seu paciente. Artigo publicado em revista de primeira linha continua precisando de leitura crítica.
Leia também
- Como ler um artigo científico em 15 minutosRoteiro de leitura crítica para profissionais de saúde: o que olhar nos métodos, como ler resultados além do valor de p e como saber se a conclusão se sustenta.
- Risco de viés: os cinco jeitos de um estudo estar errado sem mentirO que é viés, os tipos (seleção, desempenho, detecção, atrito, relato), e os instrumentos para cada desenho: RoB 2, ROBINS-I, AMSTAR 2, AGREE II, escala PEDro.
- GRADE: o que significa "certeza da evidência" e como ela é calculadaComo o GRADE classifica a certeza da evidência em quatro níveis: os cinco fatores que rebaixam, os três que elevam e o que muda na recomendação.
- RoB 2: como avaliar o risco de viés de um ensaio clínico randomizadoOs cinco domínios do RoB 2, a regra do julgamento global e um exemplo aplicado. O instrumento padrão da Cochrane para ensaios randomizados.
Fontes
- Boutron I, Ravaud P. Misrepresentation and distortion of research in biomedical literature. PNAS. 2018. https://doi.org/10.1073/pnas.1710755115
- Sterne JAC, et al. RoB 2: a revised tool for assessing risk of bias in randomised trials. BMJ. 2019. https://doi.org/10.1136/bmj.l4898
- Schulz KF, Altman DG, Moher D. CONSORT 2010 Statement. BMJ. 2010. https://doi.org/10.1136/bmj.c332
- Critical Appraisal Skills Programme (CASP) Checklists. https://casp-uk.net/casp-tools-checklists/
