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RoB 2: como avaliar o risco de viés de um ensaio clínico randomizado

O RoB 2 é a régua que a Cochrane usa desde 2019 para julgar ensaios clínicos randomizados. Ele não dá nota nem soma pontos: percorre cinco domínios, julga cada um em três níveis e deixa o pior deles decidir o resultado final.

Atualizado em 16 de setembro de 2026 · Equipe SciCritic

Ilustração abstrata de abertura: RoB 2: como avaliar o risco de viés de um ensaio clínico randomizado

O que o RoB 2 é, e o que ele não é

O RoB 2 avalia o risco de que o resultado de um ensaio esteja distorcido pelo jeito como ele foi conduzido. Não avalia se o estudo é relevante, se a amostra é grande o bastante nem se o texto está bem escrito.

Três características o separam de uma escala comum:

Antes de começar: qual efeito você quer medir

O RoB 2 pede uma escolha que quase todo iniciante pula. São dois efeitos possíveis, e o julgamento do domínio 2 muda conforme o escolhido:

Para decisão clínica, a primeira costuma ser a mais útil: o seu paciente também vai faltar em sessões.

Os cinco domínios

Elegíveiscritérios definidosSorteioalocaçãosigilosaIntervençãoo tratamento em testeControleplacebo ou cuidado usualDesfechoavaliador cegoDesfechoavaliador cegoQuem saiu do estudo? Foi analisado no grupo sorteado?Perdas e intenção de tratarOs grupos só diferem no tratamento; por isso a diferença no desfecho pode ser atribuída a ele.
A anatomia de um ensaio randomizado, e os quatro lugares onde ele costuma quebrar: o sorteio, o sigilo, o avaliador e as perdas.

Domínio 1: processo de randomização

Duas coisas diferentes são avaliadas aqui. A geração da sequência foi mesmo aleatória (sorteio por computador, tabela de números) ou era previsível (dia da semana, ordem de chegada, número do prontuário)? E o sigilo da alocação foi mantido, de modo que quem recrutava não conseguia saber em que grupo o próximo participante cairia?

O sigilo é o item mais importante do instrumento inteiro, e o mais omitido. Envelope opaco lacrado e sequenciado, ou central de randomização por telefone ou sistema, indicam sigilo. "Os pacientes foram randomizados" sozinho não indica nada. O domínio também olha se as características de base estavam equilibradas: desequilíbrio grande sugere que a randomização falhou.

Domínio 2: desvios das intervenções pretendidas

Participantes e profissionais sabiam qual grupo era qual? Houve desvio do protocolo por causa desse conhecimento (co-intervenção a mais no grupo tratado, por exemplo)? E a análise foi adequada ao efeito escolhido?

Em reabilitação, exercício e terapia manual, cegar o paciente e o terapeuta costuma ser impossível. Isso não condena automaticamente o estudo: o que se avalia é se o desvio aconteceu e se ele foi tratado. Padronizar o cuidado nos dois grupos e registrar as co-intervenções é o que salva este domínio.

Domínio 3: dados faltantes de desfecho

Quantos participantes ficaram sem o desfecho medido, e a ausência tem relação com o próprio desfecho? Perda de 5% distribuída igualmente é uma coisa; perda de 25% concentrada no grupo tratado é outra. A pergunta decisiva é se quem saiu saiu por não estar melhorando.

Procure o fluxograma CONSORT do artigo, que traz o número em cada etapa, e compare com o número analisado nas tabelas. Divergência entre os dois é comum e reveladora.

Domínio 4: mensuração do desfecho

O método de medida era adequado, foi igual entre os grupos, e quem mediu sabia a alocação? Aqui vale a distinção que mais muda o julgamento: desfecho objetivo (mortalidade, exame de imagem) sofre pouco com avaliador não cego; desfecho subjetivo (dor, função, satisfação autorrelatada) sofre muito.

Um detalhe que passa despercebido: quando o desfecho é autorrelatado, o avaliador é o próprio paciente. Se ele sabe que recebeu o tratamento novo, o cegamento do avaliador está quebrado por definição.

Domínio 5: seleção do resultado relatado

Os resultados apresentados foram escolhidos depois de ver os dados? A proteção é o registro prévio do ensaio (ClinicalTrials.gov, ReBEC) ou o protocolo publicado, com desfecho primário e plano de análise definidos antes.

Avaliar este domínio exige abrir o registro e comparar com o artigo. É trabalhoso e é o mais pulado, e é onde moram as trocas de desfecho primário.

Como sai o julgamento global

ResultadoQuando
Baixo risco de viésOs cinco domínios em baixo risco.
Algumas preocupaçõesAo menos um domínio com algumas preocupações, e nenhum em alto risco.
Alto risco de viésAo menos um domínio em alto risco, ou preocupações em vários domínios que juntas reduzem bastante a confiança no resultado.

Repare que não existe média. Quatro domínios impecáveis e um em alto risco resultam em alto risco. A lógica é a da corrente: o elo mais fraco define a resistência.

Um exemplo aplicado

Ensaio de exercício supervisionado contra orientação por cartilha para dor lombar crônica, desfecho primário dor em três meses, 120 participantes.

Global: algumas preocupações, por causa do domínio 4. E é uma limitação honesta e quase inevitável nesse tipo de ensaio, o que não muda o julgamento: ela entra depois na certeza da evidência pelo GRADE, que pode rebaixar a certeza por risco de viés.

RoB 2 no SciCritic

Quando você envia o PDF de um ensaio randomizado, o CRITIQUE reconhece o desenho e aplica o RoB 2, percorrendo os cinco domínios com o trecho do artigo citado em cada um: a frase sobre a geração da sequência, a descrição do sigilo, o fluxo de perdas, quem mediu o desfecho. Quando o artigo não informa, a análise registra que não informa, em vez de presumir que foi feito. A partir daí sai a nota de 0 a 10 com a conta aberta e a certeza em GRADE.

Veja o RoB 2 aplicado ao seu artigo, domínio por domínio

Envie o PDF do ensaio. O SciCritic percorre os cinco domínios e mostra o trecho do artigo por trás de cada julgamento.

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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre RoB 1 e RoB 2?

O RoB 1, de 2011, tinha seis itens e permitia o julgamento "incerto", que virava um depósito de dúvida. O RoB 2, de 2019, reorganizou tudo em cinco domínios, criou perguntas de sinalização objetivas que guiam o julgamento e passou a avaliar um resultado por vez, não o estudo inteiro. Revisões novas devem usar o RoB 2.

Uso RoB 2 ou escala PEDro num ensaio de fisioterapia?

Os dois avaliam coisas parecidas, com saídas diferentes. A PEDro dá uma nota de 0 a 10 e é mais rápida, e a base PEDro já traz essa nota calculada. O RoB 2 é o padrão da Cochrane e produz um julgamento por domínio, que é o que uma revisão sistemática precisa. Para trabalho acadêmico formal, prefira o RoB 2.

Posso usar RoB 2 num estudo observacional?

Não. O RoB 2 pressupõe randomização, e o domínio 1 não faz sentido sem ela. Para estudo de intervenção não randomizado o instrumento é o ROBINS-I, que tem sete domínios e começa justamente pela confusão, o problema que a randomização resolveria.

Existe planilha oficial do RoB 2?

Existe. O grupo que desenvolveu o instrumento publica os formulários em Excel com as perguntas de sinalização e o algoritmo que sugere o julgamento de cada domínio, junto com a ferramenta robvis, que gera os gráficos de semáforo usados nas revisões. Estão no site riskofbias.info.

Leia também

Fontes

  1. Sterne JAC, et al. RoB 2: a revised tool for assessing risk of bias in randomised trials. BMJ. 2019. https://doi.org/10.1136/bmj.l4898
  2. Risk of Bias Tools: RoB 2 (formulários e guia atual). https://www.riskofbias.info/welcome/rob-2-0-tool
  3. Higgins JPT, et al. Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions, capítulo 8. https://training.cochrane.org/handbook/current/chapter-08
  4. Schulz KF, Altman DG, Moher D. CONSORT 2010 Statement. BMJ. 2010. https://doi.org/10.1136/bmj.c332