O que o RoB 2 é, e o que ele não é
O RoB 2 avalia o risco de que o resultado de um ensaio esteja distorcido pelo jeito como ele foi conduzido. Não avalia se o estudo é relevante, se a amostra é grande o bastante nem se o texto está bem escrito.
Três características o separam de uma escala comum:
- Não soma pontos. Diferente da escala PEDro, que produz uma nota de 0 a 10, o RoB 2 produz um julgamento por domínio. Somar domínios esconde justamente o problema que importa.
- Julga um resultado por vez, não o artigo inteiro. Um mesmo ensaio pode ter baixo risco para dor e alto risco para função, se o cegamento do avaliador mudou entre os dois desfechos.
- Trabalha com perguntas de sinalização. Cada domínio tem perguntas objetivas sobre o que o artigo relata, e o julgamento vem das respostas, não da impressão do avaliador.
Antes de começar: qual efeito você quer medir
O RoB 2 pede uma escolha que quase todo iniciante pula. São dois efeitos possíveis, e o julgamento do domínio 2 muda conforme o escolhido:
- Efeito da atribuição à intervenção: o que acontece com quem foi designado ao tratamento, tenha ele aderido ou não. É a pergunta pragmática, a do mundo real, e corresponde à análise por intenção de tratar.
- Efeito de aderir à intervenção: o que acontece com quem de fato fez o tratamento como planejado. É a pergunta explicativa.
Para decisão clínica, a primeira costuma ser a mais útil: o seu paciente também vai faltar em sessões.
Os cinco domínios
Domínio 1: processo de randomização
Duas coisas diferentes são avaliadas aqui. A geração da sequência foi mesmo aleatória (sorteio por computador, tabela de números) ou era previsível (dia da semana, ordem de chegada, número do prontuário)? E o sigilo da alocação foi mantido, de modo que quem recrutava não conseguia saber em que grupo o próximo participante cairia?
O sigilo é o item mais importante do instrumento inteiro, e o mais omitido. Envelope opaco lacrado e sequenciado, ou central de randomização por telefone ou sistema, indicam sigilo. "Os pacientes foram randomizados" sozinho não indica nada. O domínio também olha se as características de base estavam equilibradas: desequilíbrio grande sugere que a randomização falhou.
Domínio 2: desvios das intervenções pretendidas
Participantes e profissionais sabiam qual grupo era qual? Houve desvio do protocolo por causa desse conhecimento (co-intervenção a mais no grupo tratado, por exemplo)? E a análise foi adequada ao efeito escolhido?
Em reabilitação, exercício e terapia manual, cegar o paciente e o terapeuta costuma ser impossível. Isso não condena automaticamente o estudo: o que se avalia é se o desvio aconteceu e se ele foi tratado. Padronizar o cuidado nos dois grupos e registrar as co-intervenções é o que salva este domínio.
Domínio 3: dados faltantes de desfecho
Quantos participantes ficaram sem o desfecho medido, e a ausência tem relação com o próprio desfecho? Perda de 5% distribuída igualmente é uma coisa; perda de 25% concentrada no grupo tratado é outra. A pergunta decisiva é se quem saiu saiu por não estar melhorando.
Procure o fluxograma CONSORT do artigo, que traz o número em cada etapa, e compare com o número analisado nas tabelas. Divergência entre os dois é comum e reveladora.
Domínio 4: mensuração do desfecho
O método de medida era adequado, foi igual entre os grupos, e quem mediu sabia a alocação? Aqui vale a distinção que mais muda o julgamento: desfecho objetivo (mortalidade, exame de imagem) sofre pouco com avaliador não cego; desfecho subjetivo (dor, função, satisfação autorrelatada) sofre muito.
Um detalhe que passa despercebido: quando o desfecho é autorrelatado, o avaliador é o próprio paciente. Se ele sabe que recebeu o tratamento novo, o cegamento do avaliador está quebrado por definição.
Domínio 5: seleção do resultado relatado
Os resultados apresentados foram escolhidos depois de ver os dados? A proteção é o registro prévio do ensaio (ClinicalTrials.gov, ReBEC) ou o protocolo publicado, com desfecho primário e plano de análise definidos antes.
Avaliar este domínio exige abrir o registro e comparar com o artigo. É trabalhoso e é o mais pulado, e é onde moram as trocas de desfecho primário.
Como sai o julgamento global
| Resultado | Quando |
|---|---|
| Baixo risco de viés | Os cinco domínios em baixo risco. |
| Algumas preocupações | Ao menos um domínio com algumas preocupações, e nenhum em alto risco. |
| Alto risco de viés | Ao menos um domínio em alto risco, ou preocupações em vários domínios que juntas reduzem bastante a confiança no resultado. |
Repare que não existe média. Quatro domínios impecáveis e um em alto risco resultam em alto risco. A lógica é a da corrente: o elo mais fraco define a resistência.
Um exemplo aplicado
Ensaio de exercício supervisionado contra orientação por cartilha para dor lombar crônica, desfecho primário dor em três meses, 120 participantes.
- Domínio 1: "randomização por sequência gerada em computador, em envelopes opacos lacrados e numerados". Sequência aleatória e sigilo descritos. Baixo risco.
- Domínio 2: impossível cegar paciente e terapeuta, mas o protocolo padronizou o número de contatos nos dois grupos e a análise foi por intenção de tratar. Baixo risco para o efeito da atribuição.
- Domínio 3: 11% de perda, parecida entre os grupos, com motivos descritos. Baixo risco.
- Domínio 4: dor autorrelatada em escala numérica, com o paciente sabendo que recebeu o exercício supervisionado. Desfecho subjetivo com avaliador não cego. Algumas preocupações.
- Domínio 5: registrado no ReBEC antes de começar, desfecho primário igual ao publicado. Baixo risco.
Global: algumas preocupações, por causa do domínio 4. E é uma limitação honesta e quase inevitável nesse tipo de ensaio, o que não muda o julgamento: ela entra depois na certeza da evidência pelo GRADE, que pode rebaixar a certeza por risco de viés.
RoB 2 no SciCritic
Quando você envia o PDF de um ensaio randomizado, o CRITIQUE reconhece o desenho e aplica o RoB 2, percorrendo os cinco domínios com o trecho do artigo citado em cada um: a frase sobre a geração da sequência, a descrição do sigilo, o fluxo de perdas, quem mediu o desfecho. Quando o artigo não informa, a análise registra que não informa, em vez de presumir que foi feito. A partir daí sai a nota de 0 a 10 com a conta aberta e a certeza em GRADE.
Veja o RoB 2 aplicado ao seu artigo, domínio por domínio
Envie o PDF do ensaio. O SciCritic percorre os cinco domínios e mostra o trecho do artigo por trás de cada julgamento.
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Qual a diferença entre RoB 1 e RoB 2?
O RoB 1, de 2011, tinha seis itens e permitia o julgamento "incerto", que virava um depósito de dúvida. O RoB 2, de 2019, reorganizou tudo em cinco domínios, criou perguntas de sinalização objetivas que guiam o julgamento e passou a avaliar um resultado por vez, não o estudo inteiro. Revisões novas devem usar o RoB 2.
Uso RoB 2 ou escala PEDro num ensaio de fisioterapia?
Os dois avaliam coisas parecidas, com saídas diferentes. A PEDro dá uma nota de 0 a 10 e é mais rápida, e a base PEDro já traz essa nota calculada. O RoB 2 é o padrão da Cochrane e produz um julgamento por domínio, que é o que uma revisão sistemática precisa. Para trabalho acadêmico formal, prefira o RoB 2.
Posso usar RoB 2 num estudo observacional?
Não. O RoB 2 pressupõe randomização, e o domínio 1 não faz sentido sem ela. Para estudo de intervenção não randomizado o instrumento é o ROBINS-I, que tem sete domínios e começa justamente pela confusão, o problema que a randomização resolveria.
Existe planilha oficial do RoB 2?
Existe. O grupo que desenvolveu o instrumento publica os formulários em Excel com as perguntas de sinalização e o algoritmo que sugere o julgamento de cada domínio, junto com a ferramenta robvis, que gera os gráficos de semáforo usados nas revisões. Estão no site riskofbias.info.
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Fontes
- Sterne JAC, et al. RoB 2: a revised tool for assessing risk of bias in randomised trials. BMJ. 2019. https://doi.org/10.1136/bmj.l4898
- Risk of Bias Tools: RoB 2 (formulários e guia atual). https://www.riskofbias.info/welcome/rob-2-0-tool
- Higgins JPT, et al. Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions, capítulo 8. https://training.cochrane.org/handbook/current/chapter-08
- Schulz KF, Altman DG, Moher D. CONSORT 2010 Statement. BMJ. 2010. https://doi.org/10.1136/bmj.c332
