Viés, acaso e confusão: três coisas diferentes
Um resultado pode estar errado por três motivos que exigem respostas diferentes:
- Acaso (erro aleatório): a amostra era pequena e o resultado caiu para um lado por sorte. Aumentar o estudo resolve. O intervalo de confiança mede isso.
- Confusão: uma terceira variável está ligada à exposição e ao desfecho ao mesmo tempo. Quem faz Pilates também dorme melhor; foi o Pilates ou o sono? A randomização resolve; o ajuste estatístico atenua.
- Viés (erro sistemático): o jeito como o estudo foi feito distorce o resultado numa direção previsível. Aumentar o estudo não resolve; um estudo enviesado e grande é só um estudo enviesado com intervalo estreito.
Risco de viés é o julgamento sobre o terceiro. É "risco", e não "viés", porque quase nunca dá para medir o quanto o resultado se deslocou; dá para dizer se a porta estava aberta.
Os cinco tipos que você precisa reconhecer
1. Viés de seleção
Os grupos comparados já eram diferentes antes da intervenção. Em ensaios, entra quando a randomização é previsível ou o sigilo da alocação falha. Em estudos observacionais, quando quem recebe a exposição é sistematicamente diferente de quem não recebe (o paciente mais motivado faz o tratamento novo).
2. Viés de desempenho
Os grupos foram tratados de forma diferente além da intervenção estudada. O grupo tratado recebeu mais atenção, mais consultas, mais orientação. Cegar pacientes e terapeutas evita; quando não dá para cegar, padronizar o cuidado nos dois grupos e medir a co-intervenção é o mínimo.
3. Viés de detecção
Quem mediu o desfecho sabia o grupo do paciente. Em desfechos subjetivos (dor, função, satisfação), um avaliador que conhece a alocação tende, sem perceber, a puxar o resultado. Avaliador cego é a proteção, e é possível mesmo quando o paciente não pode ser cego.
4. Viés de atrito
Quem saiu do estudo não saiu ao acaso. Se os que abandonaram o grupo tratado eram os que não melhoravam, o resultado de quem ficou é bonito e falso. Perdas grandes ou desiguais, e análise sem intenção de tratar, abrem essa porta.
5. Viés de relato
Dos dez desfechos medidos, o artigo apresenta os três que deram certo. Ou a análise muda depois de ver os dados. A proteção é o registro prévio do protocolo, com desfecho primário e plano de análise, e a comparação entre o registrado e o publicado.
Há um sexto, no nível da literatura e não do estudo: o viés de publicação. Estudos positivos são publicados; negativos ficam na gaveta. Uma revisão sistemática que não procurou os não publicados superestima o efeito.
Um instrumento para cada desenho
Não existe um checklist universal, porque cada desenho abre portas diferentes. Os instrumentos de referência:
| Desenho | Instrumento | Como julga |
|---|---|---|
| Ensaio clínico randomizado | RoB 2 (Cochrane, 2019) | 5 domínios; cada um baixo / algumas preocupações / alto; global é o pior domínio |
| Estudo de intervenção não randomizado (coorte, antes-e-depois) | ROBINS-I (2016) | 7 domínios, começando por confusão; baixo / moderado / sério / crítico |
| Revisão sistemática | AMSTAR 2 (2017) | 16 itens, 7 críticos; confiança alta / moderada / baixa / criticamente baixa |
| Diretriz clínica | AGREE II | 23 itens em 6 domínios (escopo, envolvimento, rigor, clareza, aplicabilidade, independência) |
| Ensaio em fisioterapia | Escala PEDro | 10 itens pontuados, nota de 0 a 10 |
| Acurácia diagnóstica | QUADAS-2 | 4 domínios: seleção, teste índice, padrão de referência, fluxo e tempo |
Os sete domínios do ROBINS-I merecem menção porque ele é o instrumento de quase todo estudo que não sorteou: confusão, seleção dos participantes, classificação da intervenção, desvios da intervenção pretendida, dados faltantes, medição do desfecho e seleção do resultado relatado. Um estudo observacional sempre começa com a pergunta "o que mais poderia explicar isso?", e é o primeiro domínio.
Como ler uma avaliação de risco de viés
- O julgamento global é o do pior domínio, não a média. Quatro verdes e um vermelho é vermelho.
- "Algumas preocupações" não é neutro. Quer dizer que a informação para julgar não está no artigo, e ausência de relato costuma esconder ausência de método.
- Risco de viés alto não significa resultado falso. Significa que você não consegue saber. A certeza da evidência cai, e o GRADE rebaixa por isso.
- A direção importa. Alguns vieses puxam para o efeito nulo (medida ruim do desfecho), outros para o efeito grande (sigilo de alocação ausente). Uma boa avaliação diz para onde.
Como o SciCritic avalia o risco de viés
O CRITIQUE identifica o desenho do estudo no PDF e aplica o instrumento correspondente: RoB 2, ROBINS-I, AMSTAR 2 ou AGREE II. Cada domínio vem com o julgamento e com o trecho do artigo que o sustenta (a frase sobre o sigilo da alocação, a descrição do avaliador, o fluxograma de perdas). Quando o artigo não diz, a análise diz que não diz, em vez de presumir. O resultado alimenta a certeza da evidência em GRADE. A avaliação é da IA e serve para você conferir a prova, não para substituir a sua leitura.
Veja o risco de viés de um artigo, domínio por domínio
Envie o PDF. O SciCritic escolhe o instrumento certo para o desenho, julga cada domínio e mostra o trecho do artigo que sustenta o julgamento.
Testar 7 dias grátis Hoje você paga R$ 0.Perguntas frequentes
Um estudo com alto risco de viés deve ser descartado?
Não descartado, rebaixado. Ele continua sendo informação, mas com certeza baixa. Se é o único estudo sobre a pergunta, a conclusão honesta é "a evidência é fraca", não "não há evidência" nem "está provado".
Qual a diferença entre viés e limitação?
Limitação é qualquer coisa que reduz o alcance do estudo (amostra pequena, seguimento curto, um só centro). Viés é a limitação que distorce o resultado numa direção. Amostra pequena gera imprecisão, não viés; sigilo de alocação ausente gera viés.
Posso usar a escala PEDro em vez do RoB 2?
Para ensaios em fisioterapia, pode, e é o que a base PEDro faz. Os itens se sobrepõem bastante. O RoB 2 é o padrão da Cochrane e produz um julgamento por domínio em vez de uma soma; a PEDro é mais rápida e dá uma nota. Veja o guia da escala PEDro para a correspondência.
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Fontes
- Sterne JAC, et al. RoB 2: a revised tool for assessing risk of bias in randomised trials. BMJ. 2019. https://doi.org/10.1136/bmj.l4898
- Sterne JAC, et al. ROBINS-I: a tool for assessing risk of bias in non-randomised studies of interventions. BMJ. 2016. https://doi.org/10.1136/bmj.i4919
- Brouwers MC, et al. AGREE II: advancing guideline development, reporting and evaluation in health care. CMAJ. 2010. https://doi.org/10.1503/cmaj.090449
- Cochrane Methods: Risk of Bias. https://methods.cochrane.org/bias
