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GRADE: o que significa "certeza da evidência" e como ela é calculada

GRADE é o sistema que a Organização Mundial da Saúde, a Cochrane e a CONITEC usam para dizer, em uma palavra, quanto se pode confiar numa estimativa de efeito. Ele não classifica o estudo; classifica a evidência para cada desfecho.

Atualizado em 10 de setembro de 2026 · Equipe SciCritic

Ilustração abstrata de abertura: GRADE: o que significa "certeza da evidência" e como ela é calculada

A pergunta que o GRADE responde

Depois de reunir os estudos sobre um tratamento, sobra uma estimativa: "reduz a dor em 1,8 ponto", "diminui o risco de queda em 22%". A pergunta seguinte é: quanta confiança temos de que o efeito verdadeiro está perto dessa estimativa? É isso que o GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) classifica, em quatro níveis:

CertezaO que significa
AltaÉ muito provável que o efeito verdadeiro esteja perto do estimado
ModeradaO efeito verdadeiro provavelmente está perto do estimado, mas pode ser substancialmente diferente
BaixaO efeito verdadeiro pode ser substancialmente diferente do estimado
Muito baixaÉ provável que o efeito verdadeiro seja substancialmente diferente do estimado

Repare no que não está na tabela: o tipo de estudo. O GRADE começa pelo desenho, mas termina pela evidência. E ele é aplicado por desfecho, não por estudo: a mesma revisão pode ter certeza alta para dor e muito baixa para retorno ao trabalho.

O ponto de partida

A partir daí, cinco fatores podem rebaixar e três podem elevar.

Muito baixaBaixaModeradaAltaECR começa aquiObservacional começa aqui▼ Rebaixam (1 ou 2 níveis cada)Risco de viésInconsistênciaEvidência indiretaImprecisãoViés de publicação▲ Elevam (só observacionais)Efeito grandeDose-respostaConfusão a favorCerteza por desfecho, não por estudo.A mesma revisão pode ser alta para dor e muito baixa para quedas.
O GRADE começa pelo desenho e termina pela evidência: cinco fatores descem a certeza, três podem subir.

Os cinco fatores que rebaixam (um ou dois níveis cada)

1. Risco de viés

Os estudos que sustentam o desfecho têm limitações sérias de método: sigilo de alocação ausente, avaliador não cego em desfecho subjetivo, perdas grandes, relato seletivo. É a avaliação de risco de viés chegando à conclusão. Ensaios com "alto risco" no RoB 2 costumam rebaixar um nível; quando o problema é generalizado, dois.

2. Inconsistência

Os estudos discordam entre si além do que o acaso explica: estimativas apontando para lados diferentes, intervalos que não se sobrepõem, heterogeneidade alta (I² elevado) sem explicação plausível. Se os estudos não concordam, a estimativa combinada é menos confiável.

3. Evidência indireta

A evidência responde a uma pergunta parecida com a sua, não à sua. População diferente (jovens atletas para uma pergunta sobre idosos), intervenção diferente (dose, frequência), comparador diferente, desfecho substituto (força muscular quando o que importa é cair menos), ou comparações indiretas (A vs. placebo e B vs. placebo, para inferir A vs. B).

4. Imprecisão

Poucos participantes, poucos eventos, intervalo de confiança largo o bastante para incluir tanto "benefício importante" quanto "nenhum efeito" ou "dano". A pergunta prática é: se o efeito verdadeiro estivesse em cada extremo do intervalo, a decisão clínica mudaria? Se sim, a evidência é imprecisa.

5. Viés de publicação

Suspeita de que estudos negativos não foram publicados: muitos estudos pequenos e positivos financiados pela indústria, assimetria no gráfico de funil, registros de ensaios que nunca viraram artigo.

Os três fatores que elevam (só para estudos observacionais)

  1. Efeito grande. Um risco relativo acima de 2 (ou abaixo de 0,5) sem confusão plausível sobe um nível; acima de 5, dois. É o caso de intervenções tão eficazes que nenhum ensaio foi necessário.
  2. Gradiente dose-resposta. Mais exposição, mais efeito, de forma consistente.
  3. Confusão residual plausível que jogaria contra o achado. Se todos os fatores de confusão prováveis reduziriam o efeito observado, e mesmo assim ele apareceu, o efeito real tende a ser maior.

Um exemplo, passo a passo

Pergunta: em idosos com sarcopenia, treinamento resistido reduz quedas em 12 meses?

Evidência: quatro ensaios randomizados, 380 participantes no total. Ponto de partida: alta.

Risco de viés: dois dos quatro ensaios sem sigilo de alocação e sem avaliador cego. Rebaixa um nível (moderada).

Inconsistência: os quatro apontam na mesma direção, I² baixo. Não rebaixa.

Evidência indireta: três ensaios mediram força e equilíbrio, não quedas; só um mediu quedas. Para o desfecho "quedas", rebaixa um nível (baixa).

Imprecisão: o único ensaio que mediu quedas teve 90 participantes e 31 eventos; o intervalo vai de redução importante a nenhum efeito. Rebaixa um nível (muito baixa).

Viés de publicação: poucos estudos para julgar; não rebaixa.

Certeza para "quedas em 12 meses": muito baixa. Certeza para "força de membros inferiores": alta ou moderada, porque não sofre os rebaixamentos de evidência indireta e imprecisão.

Esse exemplo mostra o motivo de o GRADE ser por desfecho: o mesmo conjunto de estudos sustenta muito bem uma coisa e muito mal outra.

Certeza não é recomendação

O GRADE tem uma segunda parte, a força da recomendação (forte ou fraca, a favor ou contra), que depende da certeza da evidência e do equilíbrio entre benefícios e danos, dos valores e preferências dos pacientes, dos custos e da viabilidade. Uma evidência de certeza moderada pode gerar recomendação forte se o efeito for grande, o dano pequeno e o custo baixo. Uma evidência de certeza alta pode gerar recomendação fraca se o efeito for pequeno e a intervenção pesada. Não confunda as duas.

Onde você vai encontrar o GRADE

Como o SciCritic aplica o GRADE

Depois de avaliar o risco de viés pelo instrumento do desenho, o CRITIQUE percorre os fatores do GRADE para o desfecho principal do artigo: aponta a imprecisão pelo intervalo de confiança relatado, a evidência indireta quando a população ou o desfecho não batem com a pergunta clínica, e o risco de viés que acabou de julgar. A certeza sai nos quatro níveis, com o motivo de cada rebaixamento escrito e o trecho do artigo ao lado. É a leitura que uma diretriz faria, para um artigo de cada vez.

Veja a certeza da evidência de um artigo, com os motivos

Envie o PDF. O SciCritic avalia o risco de viés, percorre os fatores do GRADE e entrega a certeza em quatro níveis, com cada rebaixamento explicado e o trecho citado.

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Perguntas frequentes

GRADE e nível de evidência são a mesma coisa?

Não. Nível de evidência classifica o desenho do estudo (ensaio, coorte, série de casos). GRADE classifica a certeza no efeito estimado para um desfecho, começando pelo desenho e ajustando por risco de viés, inconsistência, evidência indireta, imprecisão e viés de publicação. Um ensaio randomizado pode gerar evidência de certeza muito baixa.

Evidência de certeza baixa quer dizer que o tratamento não funciona?

Não. Quer dizer que não se sabe bem se funciona. O efeito verdadeiro pode ser maior, menor ou nulo. Na clínica, isso pede decisão compartilhada: explicar ao paciente que a evidência é incerta e pesar preferências, custo e alternativas.

Um único estudo pode ter certeza alta pelo GRADE?

Pode, em tese: um ensaio grande, bem conduzido, com resultado preciso e diretamente aplicável. Na prática é raro, porque com um estudo só não dá para avaliar inconsistência nem viés de publicação, e muitos avaliadores rebaixam por isso.

Leia também

Fontes

  1. Guyatt GH, et al. GRADE: an emerging consensus on rating quality of evidence and strength of recommendations. BMJ. 2008. https://doi.org/10.1136/bmj.39489.470347.AD
  2. Schünemann H, Brożek J, Guyatt G, Oxman A (eds). GRADE Handbook. https://gdt.gradepro.org/app/handbook/handbook.html
  3. CONITEC, Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Diretrizes metodológicas. https://www.gov.br/conitec/pt-br