A pergunta que o GRADE responde
Depois de reunir os estudos sobre um tratamento, sobra uma estimativa: "reduz a dor em 1,8 ponto", "diminui o risco de queda em 22%". A pergunta seguinte é: quanta confiança temos de que o efeito verdadeiro está perto dessa estimativa? É isso que o GRADE (Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation) classifica, em quatro níveis:
| Certeza | O que significa |
|---|---|
| Alta | É muito provável que o efeito verdadeiro esteja perto do estimado |
| Moderada | O efeito verdadeiro provavelmente está perto do estimado, mas pode ser substancialmente diferente |
| Baixa | O efeito verdadeiro pode ser substancialmente diferente do estimado |
| Muito baixa | É provável que o efeito verdadeiro seja substancialmente diferente do estimado |
Repare no que não está na tabela: o tipo de estudo. O GRADE começa pelo desenho, mas termina pela evidência. E ele é aplicado por desfecho, não por estudo: a mesma revisão pode ter certeza alta para dor e muito baixa para retorno ao trabalho.
O ponto de partida
- Evidência de ensaios randomizados começa em alta.
- Evidência de estudos observacionais começa em baixa.
A partir daí, cinco fatores podem rebaixar e três podem elevar.
Os cinco fatores que rebaixam (um ou dois níveis cada)
1. Risco de viés
Os estudos que sustentam o desfecho têm limitações sérias de método: sigilo de alocação ausente, avaliador não cego em desfecho subjetivo, perdas grandes, relato seletivo. É a avaliação de risco de viés chegando à conclusão. Ensaios com "alto risco" no RoB 2 costumam rebaixar um nível; quando o problema é generalizado, dois.
2. Inconsistência
Os estudos discordam entre si além do que o acaso explica: estimativas apontando para lados diferentes, intervalos que não se sobrepõem, heterogeneidade alta (I² elevado) sem explicação plausível. Se os estudos não concordam, a estimativa combinada é menos confiável.
3. Evidência indireta
A evidência responde a uma pergunta parecida com a sua, não à sua. População diferente (jovens atletas para uma pergunta sobre idosos), intervenção diferente (dose, frequência), comparador diferente, desfecho substituto (força muscular quando o que importa é cair menos), ou comparações indiretas (A vs. placebo e B vs. placebo, para inferir A vs. B).
4. Imprecisão
Poucos participantes, poucos eventos, intervalo de confiança largo o bastante para incluir tanto "benefício importante" quanto "nenhum efeito" ou "dano". A pergunta prática é: se o efeito verdadeiro estivesse em cada extremo do intervalo, a decisão clínica mudaria? Se sim, a evidência é imprecisa.
5. Viés de publicação
Suspeita de que estudos negativos não foram publicados: muitos estudos pequenos e positivos financiados pela indústria, assimetria no gráfico de funil, registros de ensaios que nunca viraram artigo.
Os três fatores que elevam (só para estudos observacionais)
- Efeito grande. Um risco relativo acima de 2 (ou abaixo de 0,5) sem confusão plausível sobe um nível; acima de 5, dois. É o caso de intervenções tão eficazes que nenhum ensaio foi necessário.
- Gradiente dose-resposta. Mais exposição, mais efeito, de forma consistente.
- Confusão residual plausível que jogaria contra o achado. Se todos os fatores de confusão prováveis reduziriam o efeito observado, e mesmo assim ele apareceu, o efeito real tende a ser maior.
Um exemplo, passo a passo
Pergunta: em idosos com sarcopenia, treinamento resistido reduz quedas em 12 meses?
Evidência: quatro ensaios randomizados, 380 participantes no total. Ponto de partida: alta.
Risco de viés: dois dos quatro ensaios sem sigilo de alocação e sem avaliador cego. Rebaixa um nível (moderada).
Inconsistência: os quatro apontam na mesma direção, I² baixo. Não rebaixa.
Evidência indireta: três ensaios mediram força e equilíbrio, não quedas; só um mediu quedas. Para o desfecho "quedas", rebaixa um nível (baixa).
Imprecisão: o único ensaio que mediu quedas teve 90 participantes e 31 eventos; o intervalo vai de redução importante a nenhum efeito. Rebaixa um nível (muito baixa).
Viés de publicação: poucos estudos para julgar; não rebaixa.
Certeza para "quedas em 12 meses": muito baixa. Certeza para "força de membros inferiores": alta ou moderada, porque não sofre os rebaixamentos de evidência indireta e imprecisão.
Esse exemplo mostra o motivo de o GRADE ser por desfecho: o mesmo conjunto de estudos sustenta muito bem uma coisa e muito mal outra.
Certeza não é recomendação
O GRADE tem uma segunda parte, a força da recomendação (forte ou fraca, a favor ou contra), que depende da certeza da evidência e do equilíbrio entre benefícios e danos, dos valores e preferências dos pacientes, dos custos e da viabilidade. Uma evidência de certeza moderada pode gerar recomendação forte se o efeito for grande, o dano pequeno e o custo baixo. Uma evidência de certeza alta pode gerar recomendação fraca se o efeito for pequeno e a intervenção pesada. Não confunda as duas.
Onde você vai encontrar o GRADE
- Nas tabelas "Summary of Findings" das revisões Cochrane, com a certeza por desfecho e os motivos de rebaixamento nas notas de rodapé.
- Nas diretrizes da OMS, do NICE e nas avaliações da CONITEC (Ministério da Saúde), que incorporam tecnologias ao SUS com base nele.
- Em diretrizes de sociedades profissionais que adotaram o sistema.
Como o SciCritic aplica o GRADE
Depois de avaliar o risco de viés pelo instrumento do desenho, o CRITIQUE percorre os fatores do GRADE para o desfecho principal do artigo: aponta a imprecisão pelo intervalo de confiança relatado, a evidência indireta quando a população ou o desfecho não batem com a pergunta clínica, e o risco de viés que acabou de julgar. A certeza sai nos quatro níveis, com o motivo de cada rebaixamento escrito e o trecho do artigo ao lado. É a leitura que uma diretriz faria, para um artigo de cada vez.
Veja a certeza da evidência de um artigo, com os motivos
Envie o PDF. O SciCritic avalia o risco de viés, percorre os fatores do GRADE e entrega a certeza em quatro níveis, com cada rebaixamento explicado e o trecho citado.
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GRADE e nível de evidência são a mesma coisa?
Não. Nível de evidência classifica o desenho do estudo (ensaio, coorte, série de casos). GRADE classifica a certeza no efeito estimado para um desfecho, começando pelo desenho e ajustando por risco de viés, inconsistência, evidência indireta, imprecisão e viés de publicação. Um ensaio randomizado pode gerar evidência de certeza muito baixa.
Evidência de certeza baixa quer dizer que o tratamento não funciona?
Não. Quer dizer que não se sabe bem se funciona. O efeito verdadeiro pode ser maior, menor ou nulo. Na clínica, isso pede decisão compartilhada: explicar ao paciente que a evidência é incerta e pesar preferências, custo e alternativas.
Um único estudo pode ter certeza alta pelo GRADE?
Pode, em tese: um ensaio grande, bem conduzido, com resultado preciso e diretamente aplicável. Na prática é raro, porque com um estudo só não dá para avaliar inconsistência nem viés de publicação, e muitos avaliadores rebaixam por isso.
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Fontes
- Guyatt GH, et al. GRADE: an emerging consensus on rating quality of evidence and strength of recommendations. BMJ. 2008. https://doi.org/10.1136/bmj.39489.470347.AD
- Schünemann H, Brożek J, Guyatt G, Oxman A (eds). GRADE Handbook. https://gdt.gradepro.org/app/handbook/handbook.html
- CONITEC, Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS. Diretrizes metodológicas. https://www.gov.br/conitec/pt-br
