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Guia de prática baseada em evidências

Nível de evidência: o que é e como usar sem cair na pirâmide

Nível de evidência é uma forma rápida de dizer quanto um tipo de estudo consegue provar. É útil como primeiro filtro e perigoso como único critério. Este guia explica os dois lados.

Atualizado em 10 de setembro de 2026 · Equipe SciCritic

Ilustração abstrata de abertura: Nível de evidência: o que é e como usar sem cair na pirâmide

O que "nível de evidência" quer dizer

Quando alguém diz que um tratamento tem "nível de evidência 1", está classificando o desenho dos estudos que o sustentam, não o resultado deles. A ideia é simples: alguns desenhos protegem melhor contra erro sistemático do que outros. Um ensaio clínico randomizado controla os fatores de confusão pela randomização; uma série de casos não controla nada. Por isso o primeiro fica mais alto na escala.

A classificação mais conhecida é a pirâmide, e a mais usada em diretrizes é a do Centre for Evidence-Based Medicine (CEBM) de Oxford, que na versão de 2011 organiza os estudos por tipo de pergunta: tratamento, diagnóstico, prognóstico, prevenção.

A pirâmide, do topo à base

Revisão sistemática de ECRsEnsaio clínico randomizadoCoorteCaso-controleSérie e relato de casoOpinião de especialista, mecanismomenos controle sobre viés →A pirâmide ordena o desenho planejado, não o estudo executado.
A pirâmide clássica. Quanto mais alto, mais o desenho protege contra viés. Ela não diz se o estudo foi bem feito.
PosiçãoDesenhoO que ele controla
TopoRevisão sistemática de ensaios randomizados (com ou sem meta-análise)Reúne todos os ensaios sobre a pergunta, com método explícito; reduz o peso do acaso de um estudo só
2Ensaio clínico randomizadoRandomização distribui fatores de confusão conhecidos e desconhecidos entre os grupos
3Coorte (prospectiva ou retrospectiva)Segue grupos expostos e não expostos no tempo; não controla quem escolheu a exposição
4Caso-controleParte do desfecho e olha para trás; sujeito a viés de memória e de seleção
5Série de casos, relato de casoSem grupo de comparação; descreve, não compara
BaseOpinião de especialista, raciocínio fisiopatológicoNada, além da plausibilidade

Os níveis de Oxford (CEBM 2011), para perguntas de tratamento

Note o detalhe do nível 2: um estudo observacional com efeito muito grande (o tipo de efeito que nenhum viés razoável explicaria, como a insulina no diabetes tipo 1) pode subir. A escala já reconhece que desenho não é tudo.

Onde a pirâmide engana

A pirâmide classifica o desenho planejado, não o estudo executado. Um ensaio randomizado com 18 participantes, sem sigilo de alocação, com 40% de perdas e desfecho trocado depois de ver os dados, continua sendo "nível 2" na etiqueta. Uma coorte com 12 mil pessoas, seguimento de dez anos e ajuste cuidadoso de confundidores continua sendo "nível 3". Na prática, a segunda merece mais confiança.

Três armadilhas específicas:

O que o GRADE mudou

O sistema GRADE, adotado pela Organização Mundial da Saúde, pela Cochrane e pela CONITEC no Brasil, trocou a pergunta. Em vez de "que tipo de estudo é este?", ele pergunta "quanta certeza temos no efeito estimado para este desfecho?". Ensaios randomizados começam com certeza alta e podem descer por risco de viés, inconsistência, evidência indireta, imprecisão ou viés de publicação. Estudos observacionais começam baixos e podem subir por efeito grande, gradiente dose-resposta ou confusão que jogaria contra o achado.

O resultado é uma classificação em quatro níveis, alta, moderada, baixa e muito baixa, por desfecho, e não por estudo. É mais trabalhoso que a pirâmide e muito mais honesto.

Como usar isso na prática, em três perguntas

  1. Qual é o desenho? Dá o ponto de partida.
  2. O desenho foi bem executado? Aplique o instrumento de risco de viés certo para ele.
  3. O resultado serve para o meu paciente e para este desfecho? É o que o GRADE chama de evidência direta e imprecisão.

Nível de evidência responde à primeira pergunta. As outras duas são o trabalho de verdade.

Como o SciCritic classifica

O SciCritic não para no rótulo do desenho. O CRITIQUE identifica o tipo de estudo, aplica o instrumento correspondente (RoB 2, ROBINS-I, AMSTAR 2 ou AGREE II) domínio por domínio, com o trecho do artigo ao lado de cada julgamento, e devolve a certeza da evidência em GRADE. Na busca do SELECIONE, o desenho de cada artigo aparece no resultado, para você filtrar antes de abrir o PDF.

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O SciCritic identifica o desenho, aplica o instrumento de risco de viés certo e entrega a certeza da evidência em GRADE, com o trecho do artigo que justifica cada ponto.

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Perguntas frequentes

Revisão sistemática é sempre a melhor evidência?

Não. É a melhor forma de reunir a evidência que existe, mas se os estudos incluídos têm alto risco de viés, a revisão herda o problema. Olhe a avaliação AMSTAR 2 da revisão e o risco de viés dos estudos dentro dela.

Qual a diferença entre nível de evidência e grau de recomendação?

Nível de evidência descreve a qualidade do que se sabe. Grau (ou força) de recomendação descreve o quanto se deve agir com base nisso, e leva em conta o tamanho do efeito, os danos, os custos e as preferências do paciente. Evidência alta pode gerar recomendação fraca, e vice-versa.

Estudo em animais tem nível de evidência?

Para decisão clínica em humanos, estudo em animais fica abaixo da base da pirâmide: é evidência de mecanismo, útil para gerar hipótese, não para orientar conduta. Um estudo em coelhos com resultado brilhante continua sendo um estudo em coelhos.

Leia também

Fontes

  1. OCEBM Levels of Evidence Working Group. The Oxford 2011 Levels of Evidence. Centre for Evidence-Based Medicine. https://www.cebm.ox.ac.uk/resources/levels-of-evidence/ocebm-levels-of-evidence
  2. Guyatt GH, et al. GRADE: an emerging consensus on rating quality of evidence and strength of recommendations. BMJ. 2008. https://doi.org/10.1136/bmj.39489.470347.AD
  3. GRADE Handbook. https://gdt.gradepro.org/app/handbook/handbook.html