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O que é um ensaio clínico randomizado, e o que pode dar errado nele

O ensaio clínico randomizado é o único desenho que distribui, pelo sorteio, tudo o que poderia confundir o resultado. É por isso que ele fica no alto da pirâmide. E é por isso que, quando o sorteio falha, tudo o mais falha junto.

Atualizado em 10 de setembro de 2026 · Equipe SciCritic

Ilustração abstrata de abertura: O que é um ensaio clínico randomizado, e o que pode dar errado nele

A ideia central: comparar grupos que só diferem no tratamento

Quando um paciente melhora depois de um tratamento, quatro coisas podem explicar: o tratamento, o curso natural da doença, a regressão à média (quem procura ajuda no pior momento tende a melhorar de qualquer jeito) e o efeito de ser cuidado. Para isolar a primeira, é preciso um grupo que passe por tudo menos pelo tratamento, e que seja igual ao grupo tratado em tudo o mais.

Igual em tudo o mais é o que a randomização tenta garantir. Se a alocação é por sorteio, idade, gravidade, motivação, genética e as variáveis que ninguém mediu se distribuem ao acaso entre os grupos. Nenhum outro desenho faz isso. Uma coorte, por mais bem ajustada, só controla o que foi medido.

Elegíveiscritérios definidosSorteioalocaçãosigilosaIntervençãoo tratamento em testeControleplacebo ou cuidado usualDesfechoavaliador cegoDesfechoavaliador cegoQuem saiu do estudo? Foi analisado no grupo sorteado?Perdas e intenção de tratarOs grupos só diferem no tratamento; por isso a diferença no desfecho pode ser atribuída a ele.
A anatomia de um ensaio randomizado, e os quatro lugares onde ele costuma quebrar: o sorteio, o sigilo, o avaliador e as perdas.

Os componentes que precisam estar lá

Geração da sequência aleatória

Sorteio de verdade: tabela de números aleatórios, gerador de computador, blocos permutados. "Alternado" (um sim, um não), "por data de nascimento" ou "por ordem de chegada" não é randomização, porque quem inclui o paciente consegue prever o grupo.

Sigilo da alocação

Diferente da randomização e mais esquecido. Quem recruta não pode saber, no momento de incluir o paciente, em que grupo ele vai cair. Sem sigilo, o profissional (mesmo sem má intenção) inclui o paciente mais grave quando "sabe" que o próximo é o grupo tratado. Envelopes opacos lacrados e numerados, ou central de randomização por telefone ou sistema, resolvem. Ensaios sem sigilo de alocação tendem a superestimar o efeito.

Cegamento

Quem pode ser cego: o paciente, quem aplica o tratamento, quem avalia o desfecho e quem analisa os dados. Em fisioterapia, nutrição e educação física, cegar o paciente e o terapeuta costuma ser impossível: a pessoa sabe se fez Pilates ou não. O que sempre é possível é cegar o avaliador do desfecho. Quando nem isso foi feito e o desfecho é subjetivo (dor, função relatada), o risco de viés de detecção é alto.

Desfecho primário definido antes

Um ensaio mede dez coisas; uma delas vai dar diferença por acaso. Por isso o desfecho principal e o momento de medição são definidos no registro do protocolo, antes de o primeiro paciente entrar. Compare o registro (ClinicalTrials.gov, REBEC) com o artigo. Desfecho que mudou de lugar é sinal de viés de relato seletivo.

Cálculo amostral

Quantos pacientes são necessários para detectar a diferença que importa, com margem de erro aceitável. Sem cálculo, um resultado "não significativo" não diz que o tratamento não funciona; diz que o estudo não tinha tamanho para ver.

Análise por intenção de tratar

Cada paciente é analisado no grupo em que foi sorteado, mesmo que não tenha completado o tratamento. Parece contraintuitivo, mas preserva a randomização: quem abandona não é aleatório, e tirá-lo da análise reintroduz o viés que o sorteio tinha eliminado. A análise "por protocolo" (só quem completou) responde a outra pergunta e costuma inflar o efeito.

Seguimento completo

Perdas acima de 15%, ou desiguais entre os grupos, ameaçam a comparação. Procure o fluxograma de participantes (o diagrama CONSORT): quantos foram avaliados, randomizados, tratados, perdidos e analisados.

Variantes que você vai encontrar

Como avaliar: RoB 2

O instrumento de referência para risco de viés em ensaios randomizados é o RoB 2, da Cochrane. Ele julga cinco domínios, cada um em "baixo", "algumas preocupações" ou "alto":

  1. Viés do processo de randomização (sequência e sigilo).
  2. Desvios das intervenções pretendidas (cegamento e análise apropriada).
  3. Dados de desfecho faltantes.
  4. Medição do desfecho (avaliador cego, medida apropriada).
  5. Seleção do resultado relatado.

O julgamento global é o do pior domínio: um ensaio com quatro domínios "baixo" e um "alto" tem alto risco de viés. Na fisioterapia, a escala PEDro cobre boa parte dos mesmos itens numa nota de 0 a 10.

Como relatar (e como cobrar do artigo): CONSORT

A declaração CONSORT é a lista do que um ensaio precisa relatar: registro, cálculo amostral, método de randomização, sigilo, cegamento, fluxograma, desfechos pré-definidos, danos. A versão de 2025 atualizou a lista. Se um artigo omite esses itens, ou o estudo não os teve ou o relato é ruim; nos dois casos, a confiança cai.

Como o SciCritic avalia um ensaio

Ao receber o PDF de um ensaio randomizado, o CRITIQUE aplica o RoB 2 domínio por domínio, cita o trecho do artigo que sustenta cada julgamento (o método de randomização descrito, a frase sobre o avaliador cego, o fluxograma de perdas), aponta quando o desfecho relatado não bate com o registrado e devolve a certeza da evidência em GRADE. Você confere a prova, não só o veredito.

Aplique o RoB 2 a um ensaio agora, com o trecho citado

Envie o PDF. O SciCritic julga os cinco domínios do RoB 2, mostra o trecho que sustenta cada um e devolve a certeza da evidência em GRADE.

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Perguntas frequentes

Todo ensaio clínico é randomizado?

Não. "Ensaio clínico" é qualquer estudo em que o pesquisador aplica a intervenção. Só é randomizado quando a alocação é por sorteio. Ensaios não randomizados (quase-experimentais, antes-e-depois) existem e são avaliados por outro instrumento, o ROBINS-I.

Se não dá para cegar o paciente, o ensaio é ruim?

Não necessariamente. Em intervenções como exercício e dieta, cegar o paciente é impossível e o RoB 2 leva isso em conta. O que precisa estar lá é o avaliador cego e uma análise por intenção de tratar. Sem essas duas coisas, sim, o risco de viés fica alto.

Quando o ensaio randomizado não é o melhor desenho?

Para dano raro ou de longo prazo, para exposições que não se pode atribuir (fumar, cair), e para perguntas de diagnóstico ou prognóstico. Nesses casos, coortes e estudos transversais bem feitos são o desenho de referência.

Leia também

Fontes

  1. Sterne JAC, et al. RoB 2: a revised tool for assessing risk of bias in randomised trials. BMJ. 2019. https://doi.org/10.1136/bmj.l4898
  2. Hopewell S, et al. CONSORT 2025 statement: updated guideline for reporting randomised trials. BMJ. 2025. https://doi.org/10.1136/bmj-2024-081123
  3. Cochrane Methods: Risk of Bias. https://methods.cochrane.org/bias