Duas perguntas, duas réguas
"O tratamento X funciona para Y?" é uma pergunta de efeito. Para respondê-la, você precisa de todos os estudos que compararam X com alguma coisa em pacientes com Y, avaliados pelo mesmo critério, sem que ninguém escolha só os que confirmam a tese. Isso é uma revisão sistemática.
"O que se sabe sobre Y? Quais mecanismos, quais abordagens existem, o que está em disputa?" é uma pergunta de mapa. Para respondê-la, alguém que conhece o campo escolhe o que é relevante e organiza um panorama. Isso é uma revisão narrativa.
Julgar uma narrativa pela régua da sistemática (busca reproduzível, risco de viés dos incluídos) é reprová-la por não ser o que nunca quis ser. Usar uma narrativa como se fosse sistemática é o erro oposto, e o mais comum: o autor escolheu os estudos, e você não sabe o que ficou de fora.
O que faz uma revisão ser sistemática
- Protocolo registrado antes (PROSPERO, por exemplo), com a pergunta, os critérios de inclusão e o plano de análise definidos antes de olhar os resultados.
- Busca reproduzível: as bases consultadas, a estratégia completa e a data. Qualquer pessoa consegue rodar de novo e achar os mesmos artigos.
- Critérios de inclusão e exclusão explícitos, definidos antes, aplicados por dois revisores independentes.
- Avaliação do risco de viés de cada estudo incluído, com instrumento validado.
- Síntese: quantitativa (meta-análise), quando os estudos são parecidos o bastante para somar, ou qualitativa, quando não são.
- Relato pela declaração PRISMA, com o fluxograma de quantos artigos foram achados, triados, excluídos e incluídos, e por quê.
Meta-análise é o passo estatístico que combina os resultados. Toda meta-análise deveria vir de uma revisão sistemática, mas nem toda revisão sistemática termina em meta-análise; quando os estudos são muito diferentes entre si, somar é errado.
O que uma revisão narrativa é (e é boa em fazer)
Um especialista, ou um grupo, escreve o estado da arte de um tema a partir do que conhece. Não há busca sistemática, não há avaliação padronizada dos estudos, e a seleção reflete o julgamento do autor. Isso a torna imprópria para estimar efeito e ótima para:
- entrar num tema novo e entender o vocabulário, as correntes e as controvérsias;
- entender o mecanismo por trás de uma intervenção;
- encontrar as referências-chave que uma sistemática vai avaliar depois;
- escrever a introdução de um TCC ou de um projeto.
Sinais de que você está diante de uma narrativa: não há seção de métodos, ou ela diz só "foi feita uma busca na literatura"; não há fluxograma; não há tabela de risco de viés; a bibliografia é longa e as conclusões são amplas.
Os outros tipos que aparecem na sua busca
| Tipo | Pergunta que responde | Marca registrada |
|---|---|---|
| Revisão sistemática | Qual o efeito de X em Y? | Protocolo, busca reproduzível, risco de viés, PRISMA |
| Meta-análise | Qual o efeito combinado, com que precisão? | Forest plot, heterogeneidade (I²), efeito sumário |
| Revisão de escopo (scoping) | O que existe sobre este tema, e onde estão as lacunas? | Busca sistemática, sem avaliação de risco de viés; relato PRISMA-ScR |
| Revisão guarda-chuva (umbrella) | O que as revisões sistemáticas dizem, no conjunto? | Inclui só revisões sistemáticas; avalia com AMSTAR 2 |
| Revisão integrativa | Síntese ampla, incluindo estudos de desenhos diferentes | Comum na enfermagem brasileira; método explícito, mas menos rígido que a sistemática |
| Revisão narrativa | Qual o panorama, o mecanismo, o debate? | Sem método de busca; seleção do autor |
Como julgar cada uma
Revisão sistemática se julga com a AMSTAR 2, item a item, e pelo risco de viés dos estudos que ela incluiu: uma sistemática impecável de dez ensaios ruins continua produzindo uma estimativa ruim. A certeza do que ela conclui sai em GRADE, por desfecho.
Revisão narrativa se julga por outras perguntas: quem escreveu e com que conflito de interesse; se as afirmações têm referência; se as referências são estudos primários ou outras narrativas; se o texto reconhece o que está em aberto. Uma narrativa honesta diz "a evidência aqui é fraca"; uma ruim diz "está bem estabelecido" sem mostrar por quem.
Na hora de citar
- Para afirmar que um tratamento funciona: revisão sistemática (com o risco de viés dos incluídos conferido) ou ensaios randomizados.
- Para explicar por que ele funcionaria, ou para contextualizar o problema: a narrativa serve, e nomeie-a como tal.
- Se só existe narrativa sobre o tema, a conclusão honesta para a clínica é que falta evidência de efeito, e não que "a literatura apoia".
Como o SciCritic trata cada uma
O CRITIQUE identifica o tipo de revisão antes de avaliar. Revisão sistemática recebe a AMSTAR 2 item a item, com a nota decomposta e o trecho do artigo que sustenta cada julgamento. Revisão narrativa é avaliada pela régua dela (transparência, referência, reconhecimento das lacunas), e a análise deixa explícito que o documento não estima efeito. Na busca do SELECIONE, o tipo de cada artigo aparece no resultado, para você não confundir um mapa com uma medida.
Descubra que tipo de revisão você tem em mãos
Envie o PDF. O SciCritic identifica se é sistemática, narrativa ou de escopo, aplica a régua certa e mostra, com o trecho citado, o que o documento consegue e o que não consegue provar.
Testar 7 dias grátis Hoje você paga R$ 0.Perguntas frequentes
Revisão Cochrane é a mesma coisa que revisão sistemática?
A Cochrane é uma organização que produz revisões sistemáticas com um método particularmente rigoroso, publicadas na Cochrane Library e indexadas no PubMed/MEDLINE. Toda revisão Cochrane é sistemática; nem toda sistemática é Cochrane. O SciCritic as encontra pelo PubMed, não por consulta direta à Cochrane Library.
Posso usar uma revisão integrativa no meu TCC?
Pode, e na enfermagem é o formato mais comum de TCC. O que a banca vai cobrar é o método: pergunta clara, bases e estratégia de busca descritas, critérios de inclusão, e alguma avaliação da qualidade dos estudos incluídos. Uma integrativa sem esses elementos é uma narrativa com outro nome.
Meta-análise com resultado significativo é evidência definitiva?
Não. Depende da qualidade dos estudos combinados, da heterogeneidade entre eles e do risco de viés de publicação. Uma meta-análise de estudos pequenos e positivos, sem os negativos que nunca foram publicados, superestima o efeito. A AMSTAR 2 e o GRADE servem exatamente para pesar isso.
Leia também
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- Risco de viés: os cinco jeitos de um estudo estar errado sem mentirO que é viés, os tipos (seleção, desempenho, detecção, atrito, relato), e os instrumentos para cada desenho: RoB 2, ROBINS-I, AMSTAR 2, AGREE II, escala PEDro.
Fontes
- Page MJ, et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ. 2021. https://doi.org/10.1136/bmj.n71
- Shea BJ, et al. AMSTAR 2: a critical appraisal tool for systematic reviews. BMJ. 2017. https://doi.org/10.1136/bmj.j4008
- Whittemore R, Knafl K. The integrative review: updated methodology. J Adv Nurs. 2005. https://doi.org/10.1111/j.1365-2648.2005.03621.x
- PROSPERO, registro internacional de revisões sistemáticas. https://www.crd.york.ac.uk/prospero/
